POLÍTICA

Delcídio aposta em segundo turno e defende frente ampla para encerrar “azambujismo” em MS

Candidato do PRD ao Governo de Mato Grosso do Sul falou ao Café & Política sobre seu retorno, criticou o grupo que comanda o Estado, questionou o fundo eleitoral e defendeu prioridade à qualificação profissional

O candidato do PRD ao Governo de Mato Grosso do Sul, Delcídio do Amaral, afirmou nesta sexta-feira (11), durante entrevista ao programa Café & Política, que acredita na realização de um segundo turno e defendeu a formação de uma ampla aliança para enfrentar o grupo político que governa o Estado.

Presidente estadual do PRD, Delcídio concentrou parte da entrevista nas críticas ao que chama de “azambujismo”, expressão usada por ele para definir o modelo político liderado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja e que atualmente sustenta a administração do governador Eduardo Riedel.

Apesar das críticas, Delcídio afirmou respeitar Riedel pessoalmente. Segundo ele, sua divergência está relacionada à maneira como o grupo conduz a política estadual.

“Nós somos contra o azambujismo, que é uma forma de fazer política nesse Estado com a qual não concordamos. É política de perseguição, política de grupo e de uma elite”, declarou.

Retorno após período de reflexão

Ao explicar por que decidiu voltar ao cenário político e disputar novamente o Governo, Delcídio disse que passou por um longo período de reflexão pessoal, familiar e espiritual depois dos problemas enfrentados com a Justiça.

O ex-senador afirmou que encontrou na família, nos amigos e na formação cristã a força necessária para atravessar o momento mais difícil de sua trajetória.

“Eu caminhei durante esse período nas sombras do Vale da Morte. Mas orei muito, estudei muito e foquei no meu processo jurídico”, afirmou.

Delcídio também destacou que a acusação que levou à sua prisão em 2015 era de obstrução de Justiça, e não de corrupção. Na época, ele foi acusado de tentar interferir na delação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. O ex-senador teve o mandato cassado pelo Senado em 2016 e foi absolvido pela Justiça Federal no processo criminal em 2018.

Confiança no segundo turno

Durante a entrevista, Delcídio disse acreditar que o cenário eleitoral está mudando e que existe possibilidade de a disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul chegar ao segundo turno.

Segundo ele, o grupo governista estaria excessivamente confiante na vitória e apostando em uma campanha concentrada nas últimas semanas antes da eleição.

“Eles acreditam piamente que já ganharam. Vão fazer uma eleição de 15 dias. Na reta final, vão ligar o motor para patrulhar os demais candidatos”, declarou.

Delcídio comparou a estratégia do grupo a uma corrida de cavalos, na qual o competidor permanece escondido e acelera somente nos metros finais.

Pesquisa Quaest divulgada em 25 de agosto mostrou Riedel com 40% das intenções de voto, Fábio Trad com 13% e Delcídio com 8%. O levantamento ouviu 804 eleitores e tem margem de erro de três pontos percentuais. Confira os dados da pesquisa.

Frente ampla contra o grupo governista

Delcídio afirmou que PRD e Solidariedade procuram construir uma alternativa fora da polarização entre a direita e o PT. Ao mesmo tempo, defendeu uma aliança ampla para impedir a permanência do atual grupo no poder.

Segundo ele, o projeto político ligado a Azambuja já está no comando do Estado há 12 anos e pretende permanecer por, pelo menos, mais um mandato.

“Nós vamos fazer uma aliança ampla com todos os partidos”, afirmou.

O candidato reconheceu que já conviveu e colaborou com o grupo que hoje critica, mas disse conhecer por dentro seu método de atuação. Para Delcídio, o chamado “azambujismo” busca enfraquecer os adversários antes mesmo do início da disputa.

O azambujismo tenta ganhar a partida no vestiário. Quando o time entra em campo, já está 5 a 0”, comparou.

Ao falar sobre uma eventual disputa de segundo turno, Delcídio não confirmou diretamente se apoiaria Fábio Trad contra Riedel. Ele afirmou, porém, que existe uma frente contra o atual governador e criticou a aproximação política entre o grupo governista e integrantes do PT.

Delcídio citou o deputado federal Vander Loubet como possível interlocutor de Mato Grosso do Sul com um eventual governo Lula, independentemente do resultado da eleição estadual.

Traições e alianças do passado

O candidato também relembrou disputas eleitorais anteriores e afirmou que já chegou a ter possibilidade de vencer uma eleição no primeiro turno, mas teria sido alvo de uma movimentação para levar a disputa à segunda etapa.

Delcídio acusou o ex-governador André Puccinelli de romper um acordo para uma aliança entre PT e MDB.

“Chegou na hora H e me traiu. O André me traiu várias vezes, mas isso não me interessa. A traição faz parte”, declarou.

Ao defender a união de diferentes forças contra um adversário comum, Delcídio citou o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill como sua maior inspiração política.

Críticas ao fundo eleitoral

Outro ponto abordado foi o financiamento público das campanhas. Delcídio afirmou que o fundo eleitoral aumentou a desigualdade política e concentrou poder nas mãos dos dirigentes das maiores legendas.

Para o candidato, os presidentes partidários priorizam aliados e candidatos à Câmara dos Deputados, ampliando a influência dos partidos sobre qualquer presidente eleito.

“É uma casta política. Eles estão pouco preocupados em eleger majoritário. Querem eleger deputados federais porque qualquer presidente que entrar vai ficar na mão deles”, criticou.

Durante a entrevista, Delcídio mencionou um fundo de R$ 6 bilhões. Conforme o Tribunal Superior Eleitoral, porém, o Fundo Eleitoral de 2026 possui oficialmente R$ 4,96 bilhões, distribuídos entre 30 partidos. Os valores estão disponíveis no TSE.

O candidato também afirmou que mais de 490 deputados federais buscariam a reeleição. Levantamento divulgado pelo Congresso em Foco aponta que 437 dos 513 parlamentares tentam permanecer na Câmara. Ao todo, 500 deputados disputam algum cargo nesta eleição.

Educação e empregos para a população local

Na área da educação, Delcídio defendeu maior prioridade para o ensino fundamental, o ensino médio e a formação técnica.

Segundo ele, Mato Grosso do Sul recebe grandes investimentos, mas corre o risco de ver muitas vagas ocupadas por profissionais de fora porque não qualificou adequadamente sua mão de obra.

“Os grandes projetos vão empregar muita gente, mas nós não conseguimos priorizar a qualificação, especialmente no ensino médio”, afirmou.

Delcídio defendeu que os estudantes sejam preparados tanto para o ensino técnico quanto para a universidade. Na avaliação do candidato, o Brasil erra ao tratar a expansão do ensino superior como se fosse suficiente para resolver os problemas da educação.

“Política de educação é ensino fundamental e ensino médio. São eles que mudam um país”, declarou.

Dados mais recentes do Inep mostram que o Ideb do ensino médio de Mato Grosso do Sul passou de 4,0, em 2023, para 4,4, em 2025, alcançando o maior resultado da série histórica do Estado. Na rede pública, o índice passou de 3,8 para 4,2. Veja os números oficiais do Inep.

Ao longo da entrevista, Delcídio buscou apresentar sua candidatura como uma alternativa à polarização, combinando críticas ao atual grupo político com propostas voltadas à qualificação profissional. Para transformar a frente de oposição em um projeto eleitoral competitivo, porém, ainda terá de detalhar quais partidos aceitarão a aliança e quais medidas concretas pretende executar caso seja eleito.

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Foto: Four News

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